Coisas Existentes em Função do Desejo

Uma tampa de um antigo baú aparece coroada por uma custódia bordada em fios de ouro sobre cetim vermelho, com pés de um velho console de 'salto-alto' de estribos de metal. O enigmático objeto se assemelha a um ser fantástico que tem costas de sofisticada amálgama sensorial que mistura veludo capitoneado vermelho, metal de espéculos abertos a modo de costelas unidas por um 'esterno' de madeira, tudo arrematado por uma 'cauda' com acabamento de metal polido e incisivo como um ferrão. Tal descrição pareceria corresponder à materialização de algum dos estranhos seres de Hieronymus Bosch. Porém, é a peça "A Ordenação", de Marcos Zacariades.

Toda a mostra "Coisas Existentes em Função do Desejo" me lembra às ambiências das tábuas de Bosch, não por correlações formais ou técnicas que soariam forçadas, mas pelas proximidades temáticas e dos contextos simbólicos que os dois artistas trabalham. Apesar dos cinco séculos que separam Bosch e Zacariades, há um paralelo geral que me parece pertinente. Bosch exprime um contraste entre a perenidade da imaginária medieval e a modernidade da técnica do óleo, que permitiu representar com detalhe o mundo visível e sensível dos medos do seu tempo. Zacariades atualiza tal contraste entre a contemporaneidade da assemblagem como linguagem e o paroxismo religioso e de valores da atualidade, principalmente brasileira. E ressalta: "meu olhar se volta para fora, para a rua, a vila, a cidade e todo um inventário de comportamento popular, para deslumbrar-se numa investigação interior, aguçando a percepção do que se revela e dialoga entre o eu e os outros, onde as relações se consolidam sob o signo das alteridades, de se ver naquele que se espelha, de sentir o que é o sentido do outro, moldadas pelo desejo inerente dos que prospectam, buscam, sob a sombra dos seus estímulos íntimos".

A exposição apresentada entre abril e maio de 2014 na Caixa Cultural é um conjunto de instalações, vídeos, esculturas e assemblages que pode ser lido como um complexo percurso pela fronteira entre a ética e a moral contemporâneas. O repertório nasce da observação do contexto da mineração na Chapada Diamantina, do cenário extrativista do garimpo de diamantes e, principalmente, do legado das minas exauridas em meados do século XX e de minas que ainda se mantém na região. Entretanto, o projeto que ora se apresenta é resultado da residência artística realizada pelo artista no Bellagio Center, em Bellagio, Itália, entre setembro e outubro de 2013, como artista convidado da Rockefeller Foundation.

A própria natureza da Chapada, os modos de vida e os objetos da cultura extrativista compõem o vocabulário básico da proposta perpassada por quatro eixos de investigação artística. O primeiro eixo é o mundo subterrâneo geológico e incógnito das minas, em suas relações entre a consciência sobre o passado dos recursos minerais e os exercícios especulativos e fantasiosos da riqueza. O segundo eixo é configurado pelas extrações e seus desdobramentos materiais e simbólicos, ou seja, o mineral que foi arrancado pela força e o vazio gerado pelas atividades extrativas, as migalhas que restam de um processo essencialmente predatório das florestas e as lacunas deixadas pelo garimpo. O terceiro eixo é a estrutura de poder própria da cultura mineradora, o masculino e suas relações de sexualidade e dominação. E o quarto eixo é o desejo inerente à busca concreta pelo diamante e outros produtos minerais que, de modo filosófico, leva o homem do garimpo a se deparar com a transitoriedade da sua existência.

Há o reconhecimento explícito do valor de uma materialidade irredutível que supera a eloqüência visual dos objetos assemblados. Há um processo arqueológico e artesanal que vai além da intencionalidade ideológica, um sentido essencial e humilde que resgata o que há de específico nos resquícios e que precede a qualquer transcendência conceitual. É a própria matéria e o acabamento esmerado das superfícies que embasa a potência expressiva.

Entretanto, para mim há muito mais do que a materialidade e a simbologia mais consciente que o artista trabalha. Voltando às evocações da obra de Bosch, o conjunto das obras pode ser lido como uma reflexão atualizada sobre os valores adquiridos nas escolhas cotidianas das nossas experiências, a herança quase genética dos discursos axiomáticos da hipocrisia social, e os acúmulos culturais que carregamos nos comportamentos habituais. No contexto da cultura atual, desde o sincretismo baiano até os valores ocidentais de tradição ibérica, vejo as diferentes peças como atualização dos sete pecados capitais, menos num sentido de epítome dos vícios e perversões bíblicos e mais na premência de reflexão sobre os valores e as transgressões contemporâneos.

Como início de percurso, a obra "Cristalinos" em backlight nos remete ambiguamente ao símbolo surrealista, carregado de implicações obscenas e religiosas, e à condição pós-mídia dos mecanismos de vigilância, da virtualidade e da interatividade. Como um Leviatã, o painel luminoso sintetiza essa relação retórica dos olhares fixos que condensam ora resignação, ora guarda, ora inveja, ora desesperança, ora desejo, ora vigília, ora uma relação voyeur.

Na obra "Reconhecemos Aqui a Nossa Existência Precária" (A Cadeira do Dentista) são juntadas duas peças fortemente ligadas pela memória de sua origem. O buquê congrega 900 dentes coletados entre 2003 e 2005 no Posto de Saúde Municipal de Andaraí. Muitos dos dentes contêm um diamante incrustado no lugar da cárie que, possivelmente, motivou a sua retirada da dentadura anônima. A cadeira odontológica, antiga e aposentada, proveniente de um depósito de objetos inservíveis da Prefeitura local, guarda uma memória específica e macabra: quantos foram os dentes arrancados na vida útil daquela cadeira? Assim, cadeira e buquê conformam uma imagem quase tautológica da qual possivelmente Lúcifer ficaria satisfeito.

O vídeo "Coisas Existentes em Função do Desejo", que dá nome à exposição, apresenta imagens captadas entre 2004 e 2013 da festa do Divino em Andaraí na qual, anualmente, um grande mastro de madeira, proveniente de uma árvore derrubada na região, é içado por uma procissão masculina. O ritual conjuga um misto de transe coletivo e euforia devocional, numa fronteira difusa entre a força e o erotismo do macho em todas as suas ambigüidades. O vídeo se relaciona com o "Banquete de Migalhas" composto por pequenos pedaços de madeiras nobres (jacarandá, aroeira, peroba, etc.), coletados nas matas de Andaraí. Muitos dos fragmentos são restos de árvores derrubadas que, depois de polidos com esmero, exalam um valor dúbio de resquício e de jóia. Não é difícil encontrar associações com a gula e o desejo insaciável de alimento que, no centro, se focaliza num tronco velho e carcomido, outro resto da devastação, que também remete a uma castração.

Os resquícios da devastação das matas ecoam em "Tântalo", porém, novamente a matéria do tronco parcialmente queimado guarda entrelinhas complexas além do aparente. A peça evoca o personagem da mitologia grega condenado a viver sem ter as suas vontades satisfeitas. Foi jogado num vale rodeado de água e floresta, mas, quando tinha sede, a água se escorria por suas mãos ou se afastava dele; ao tentar pegar um fruto, o vento levantava os galhos das árvores impedindo de alcançá-lo. Na peça, as eloqüências da impossibilidade estão explícitas na estaca polida com o pequeno detalhe em aço inox, como um pênis atrofiado, que não cumpre ou nunca cumpriu a sua função, e na maçã no alto, inalcançável aos restos de membros carbonizados. De modo metafórico, o conhecido "suplício de Tântalo" alude à condição humana de insatisfação crônica ou a impossibilidade de lidar com os próprios desejos. Como no "Banquete de Migalhas", o trabalho nos empurra à reflexão sobre os pecados de insaciabilidade de Bosch e relações mais abrangentes sobre a frustração e as repressões cotidianas.

A obra "O Medo das Mãos ou Na Ratoeira o Queijo é de Graça", instalada na parede, afirma a ideia do desejo de posse, o impulso de apreensão de um objeto valioso, algo quase instintivo ou, talvez, recorrente na nossa cultura, de constatar com as mãos aquilo dotado de um valor material, como se a mera contemplação visual fosse insuficiente para a fruição. Novamente a associação com a gula como apetite insaciável por bens materiais e a reflexão sobre o pecado da avareza, as armadilhas pregadas pela cobiça e ganância, afloram nas entrelinhas do trabalho artístico.

Voltando à "A Ordenação", é um objeto sincrético que lembra as representações corpóreas de Exú, a sombra simbólica do Asmodeus que ressoa eclesiasticamente, que encarna o freudiano reprimido, que se esconde entre as cortinas dos palácios episcopais sob forma de tentação, que oscila entre o pecado moral e o delito ético. É uma delicada assemblagem que sintetiza o conflito humano entre a sedução e a repulsa assim como o tríptico "As Marias" que remete às formas do falo e ao feminino desde a estrutura freudiana. Essas três figuras em madeira evocam a idéia da feminilidade menos como discurso de gênero e mais como possibilidade de captura fálica. Nas duas peças são inesquiváveis as relações com a luxúria e o desequilíbrio das emoções, o impulso passional e a premência do prazer carnal.

O percurso culmina com a "Carta de ABC", uma instalação complexa, no sentido espacial e significativo, na qual um tapete de mais de 70 máquinas de escrever 'obstaculiza' a passagem até a fossa ao fundo da sala enquanto um filme revela o estraçalhamento que seria impossível de acompanhar com detalhe sem mediação tecnológica. Novamente voltamos à ambigüidade do olhar, de atração e repulsa, de curiosidade daquilo que enxergamos e temos dificuldade de acessar e de rejeição daquilo que vemos impregnado de detalhe. Por um lado, somos obrigados a pisar, literalmente, no objeto obsoleto; por outro lado, somos expostos à violência destrutiva do mesmo objeto pela sofisticação tecnológica que nos permite observar o que naturalmente não poderíamos ver. Um conflito latente entre o permitido e o interdito. Porém, qual é a referência de tudo isso? A Carta de ABC é uma cartilha vinculada ao tradicional método sintético de alfabetização, que foi editada até meados do século XX, mas que continuou sendo impressa e distribuída com modificações, sobretudo nas regiões do Norte e Nordeste do Brasil até pouco tempo atrás. É um objeto cultural em torno do qual eram realizados os primeiros contatos das crianças com a cultura escrita, principalmente no meio rural. A instalação "Carta de ABC" foi inspirada pela obra literária de Herberto Sales, "Cascalho" (1944). Sales disseca a vida dos garimpeiros e do mundo da mineração diamantífera nos anos 1930, o aprendizado rude de uma realidade miserável e violenta. A Carta de ABC representa o contraponto de um aprendizado "na dureza da sobrevivência" que nenhuma cartilha consegue registrar. A Carta de ABC simboliza a lógica da persistência de valores oficiais anacrônicos em meios onde a pedagogia do chicote e a lei do mais forte imperavam. E nós somos estimulados a ver essa relação de conflito, a tomar uma atitude de pisoteio da letra para ver a sepultura da mesma, de confronto do que acreditamos saber com o que tememos tomar conhecimento.

Apesar de toda a crítica voltada para um modelo social que foi consolidado nesses anos de exploração das lavras e da relação predatória do homem com a natureza, não há exercícios de denuncismo nem de revanche. Para o artista "o que move todas estas criações é o sentimento de compaixão e amor ao lugar; não identifico vilões históricos, apenas os protagonismos no contexto e na finitude destes objetos".

Alejandra Muñoz