Coisas Existentes em Função do Desejo

Sob o olhar voltado para os restos de florestas devastadas, para a paisagem social encontrada nas minas exauridas de diamantes e nos garimpos que ainda abrigam uma população de trabalhadores, que persistem e creem naquilo que um dia gerou as coisas do lugar, foi construído o arcabouço de sustentação de Coisas Existentes em Função do Desejo.

A leitura e a escuta do comportamendo popular encontrou no desejo de homens fazedores e geradores de transformações, o foco dessa investigação que delineou, a partir de então, o que aqui representa a saga de uma vontade que revirou a terra e erigiu os modelos existenciais que hoje se reproduzem, num território de contradições perpétuas e insistentes.

A gênese dessa Mostra partiu do acompanhamento constante das procissões do Mastro do Divino, na cidade de Andaraí. Um ritual que vai além do sagrado, numa euforia impulsionada pelos sentidos do querer e que produz uma marcha orgulhosa de homens em louvor à supremacia de um “falo coletivo”, sujeito da vontade e da redenção masculina.

As florestas dizimadas foram lugares de prospeccão das sobras de um banquete farto e perverso. Angico, Vinhático, Aroeira, Baraúna e Jacarandá que tombavam em função de um nada tenebroso, como prenúncio das cinzas e de um chão que agora arde de pobreza. Uma realidade que persiste e ainda insiste no vasto Brasil rural.

O desejo contém uma ligação forte com o que se extrai da terra, do corpo e da alma, e pode agigantar a fome contida no homem finito e imperfeito, que consolida as relações de poder sob uma eterna tensão de uma existência exuberante e precária, que tudo busca e de tudo extrai, para gerar um conjunto de elementos que caracteriza a ação humana na terra: o fazer as coisas existirem.


Marcos Zacariades
Artista Curador – Andaraí/Bahia